MEMÓRIAS DO FESTIVAL

MEMÓRIAS DE UM FESTIVAL

por Luiz Borges

 

Iniciado em 1993, através do convênio Pluripartite 001/93 (UFMT, SEBRAE, GOVERNO DO ESTADO DE MT, PREFEITURA MUNICIPAL DE CUIABÁ E FIEMT) o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá iniciou como MOSTRA BRASILEIRA DE CINEMA E VÍDEO DE CUIABÁ. Tratava-se de uma mostra informativa e, portanto, sem caráter competitivo.

Designer: Rodrigo Agnolon

O surgimento dessa mostra ocorreu em um período muito difícil para o cinema brasileiro. A EMBRAFILME acabara de ser desmontada pelo Governo Collor de Mello; a produção brasileira quase se extinguira; e na cidade de Cuiabá havia apenas uma sala de cinema em funcionamento: o Cine Teatro Cuiabá. Esta sala, à época, era voltada para exibição quase exclusivamente de filmes estrangeiros, do tipo blockbuster.

A programação oficial do Festival era focada nos poucos filmes brasileiros produzidos no período. Atendendo à demanda reprimida dos espectadores cuiabanos por acesso a filmes de diferentes cinematografias, uma mostra de filmes antecedia as sessões oficiais do festival: a Mostra CINE MUNDO ocupava 15 dias de exibição e era realizada na sala recém-inaugurada à época, no Cine 3 Américas. O mencionado Cine Teatro Cuiabá fora fechado por quase uma década.

Através da Mostra Cine Mundo, o Festival trouxe para os cinéfilos mato-grossenses a contemporaneidade global através de dezenas de filmes, de renomados autores da cinematografia mundial.

Outra mostra desse período que permitiu a conexão sul-americana do Estado foi a Mostra CURTA LATINO, quando importantes filmes de cada país da América do Sul eram exibido na cidade com a presença de seus realizadores, desta forma, enriquecendo o debate cultural na cidade.

Essa difusão propiciada pelo Festival se alinhava a outros dois importantes eixos/objetivos de sua produção, fundamentais para a retomada da produção no Estado: a Memória e a Educação.

Em suas primeiras edições, o Festival homenageou o até então desconhecido cinegrafista Armênio Lázaro Papazian. Nos anos seguintes foram homenageados o cinegrafista mato-grossense Vicente Leão e, por conseguinte, o sueco Arne Sucksdorff e o brasileiríssimo José Mojica Marins. Essas homenagens não significaram apenas o reconhecimento público dessas personalidades: nessas ocasiões foram também exibidos os mais importantes filmes desses realizadores.

 

 

É necessário destacar que esses últimos, Sucksdorff e Mojica Marins, jamais haviam sido reconhecidos e premiados nos poucos festivais brasileiros existentes à época: Festival de Gramado, Festival do Rio de Janeiro, Festival de Curtas de São Paulo, Guarnicê Cine Vídeo de São Luís, Jornada de Cinema da Bahia. Nos anos seguintes a essas homenagens em Cuiabá, o consagrado Festival de Cinema de Brasília homenageou ambos cineastas sucessivamente. Dessa forma, o recém-nascido mostrava o vigor desse rebento: o Festival de Cuiabá assumia posição de destaque na cena do cinema brasileiro, particularmente na do Centro Oeste.

 

Plateia lotada no Teatro Universitário da UFMT

 

Nos anos seguintes, atendendo a necessidade de registrar a participação dos filmes no Estado, bem como associá-los à cidade sede, a Mostra passou a ser competitiva, transformando-se, portanto, num Festival. Surge o Troféu Coxipone, uma bela obra encomendada à artista plástica Rose Vic.

 

 

Nos anos que se sucederam o Festival continuou revelando importantes nomes do cinema brasileiro: o primeiro prêmio de melhor atriz na carreira de Dira Paes pelo filme Corisco e Dadá de Rosemberg Cariry; o primeiro prêmio de melhor diretor na carreira de Fernando Meireles, pelo filme Domésticas, dividido com Nando Olival.

 

Dira Paes em Chapada

 

Chico Diaz e Dira Paes

A partir de 1995 quando se institui uma temática para cada edição, a curadoria do Festival escolheu importantes temas, tais como Viajantes, quando trouxe os filmes e os debates sobre a passagem pelo Estado de importantes viajantes, tais como Noel Nutels, o Major Luís Reis com a Expedição Rondon, o filósofo Claude Levi Strauss dentre outros.

Desde então diversos temas se associaram à realização do evento, tais como Discriminação e Racismo, Regionalização & Inclusão, Fronteiras, Astronomia, Arte e Tecnologia dentre outros. Em seu nono ano, quando o tema foi América, o Festival trouxe representantes de dois tratados comerciais que estavam em pauta no Brasil: a ALCA e a NALCA.

 

 

Nesse debate se descobriu que os mecanismos de fomento do cinema brasileiro, como também as demais leis de incentivo à cultura, se tornariam ilegais (como ocorrera no México), caso esses tratados fossem firmados sem uma medida protetiva. Era necessário um decreto do governo federal que instituísse à produção do país o caráter de produto de exceção cultural. A carta de Cuiabá, como era chamada a resolução dos debates ocorridos a cada edição do Festival, foi levada para o III Congresso de Cinema Brasileiro, na cidade do Rio de Janeiro, sob a presidência do cineasta Gustavo Dahl. Esse documento histórico foi aprovado pela plenária desse Congresso e enfim pode assegurar a legalidade e continuidade dos mecanismos de fomento da produção do país. Dessa forma, o papel de revelador de novos talentos e de vanguarda também se expandiu para outros cenários, o dos debates econômico, político e cultural do país.

O Festival de Cuiabá também nasceu sobre a égide da inclusão social, termo que anos mais tarde se tornaria consenso nas políticas públicas para a cultura e outros setores no Brasil. Isso que acontecia no Festival através de dois eixos: o primeiro, através da realização de uma série de oficinas de cinema com renomados profissionais brasileiros das diversas áreas de produção (roteiro, direção, produção, som, fotografia, desenho animado, maquiagem, etc.). Essas oficinas foram indispensáveis para a retomada do cinema no Estado e propiciaram o surgimento de novos projetos, novos diretores e de novos técnicos; o outro eixo foi o projeto Cinema Paradiso, que levou filmes para as sujeitos excluídos/impedidos, pela saúde ou força da lei, do acesso a esse entretenimento. À época a imprensa nacional voltou seus olhos para a cidade Cuiabá. Durante o noticiário do Jornal Nacional da TV Globo, o âncora Cid Moreira anunciou: “Hoje as detentas da Penitenciaria do Presídio Pascoal Ramos tiveram um dia diferente”. O Festival havia promovido uma sessão de filmes para essa população encarcerada. Dentre essas sessões, outras aconteceram em diversos locais e instituições da cidade: Penitenciaria do Carumbé, Lar Espírita Monteiro Lobato, Pronto Socorro Municipal, Casa de Solidariedade Mãe Joana, Lar dos Idosos, Central de Reciclagem de Lixo de Cuiabá, Feira do Porto, e em diversas unidades de ensino da rede pública municipal e estadual.

 

Sessão para os garis da Central de Reciclagem de Cuiabá

 

Sessão na Penitenciaria Feminina de Cuiabá

 

Sessão para escola

 

Sessão para Lar de Idosos

 

Ao final dos seus quatro primeiros anos de existência, diante da recém-criada Lei de Incentivo a Cultura Hermes de Abreu, o mencionado convênio que assegurava a realização do festival não foi renovado. Seus signatários acreditam que uma vez criado esse novo mecanismo de incentivo a cultura, o Festival não precisaria mais de fomento direto dessas instituições e deveria buscar seu financiamento diretamente no mercado.

Essa mudança trouxe grandes desafios à realização e continuidade do evento, uma vez que essa Lei era desconhecida: as empresas privadas não possuíam a cultura do patrocínio cultural, e diversos ajustes seriam necessários para o pleno funcionamento dessa política pública de fomento. O Festival de Cinema e a AMAV – Associação Mato-Grossense de Audiovisual, instituição criada no seio do Festival, tiveram um papel fundamental no aperfeiçoamento da Lei Hermes de Abreu. À época, durante a realização do Festival, no auditório da SEFAZ, foi promovido um debate entre a classe e o então secretário Walter Albano. Dessa reunião surgiu o conhecido efeito cascata das deduções da lei, que permitiu às pequenas e micro empresas a possibilidade de investirem na Lei, diretriz que se tornou referência no país.

É preciso lembrar que nesse período de transição de modelo de financiamento, o Festival só não deixou de ser realizado graças ao empenho pessoal do Governador Dante de Oliveira. Atendendo ao pedido da Coordenadora de Cultura da UFMT, a professora Marina Muller, uma defensora inconteste do Festival, intercedeu por anos consecutivos junto ao governador para intervir diretamente junto à empresa de eletricidade do Estado (então chamada CEMAT),para investir no projeto através da recém-criada e desconhecida Lei.

Até o décimo ano o Festival foi realizado no Teatro Universitário da UFMT. Em seu entorno, aconteceu, por anos consecutivos, uma Feira do Audiovisual, apresentando os produtos e as poucas empresas que atuavam no setor em Mato Grosso. Essa feira foi uma forma que os organizadores do Festival encontraram para estimular o comércio e a produção dos produtos audiovisuais em MT, à época, formado exclusivamente por emissoras de TV e agências de publicidade.

Em seu décimo ano, o Festival passou por uma profunda transformação, quando se transferiu para a recém-inaugurada sala de cinema do Multiplex Pantanal. O público, que até então era, em sua maioria, universitário (e que abarrotava as sessões no Teatro da UFMT), passou a abranger outros segmentos e outras classes sociais da população que circulavam no shopping.

 

 

A realização do Festival sempre animou a cena cultural de Mato Grosso. Seja através das sessões e debates, seja através dos encontros, festas e comemorações. Esses momentos festivos eram oportunidade para veicular trabalhos musicais de importantes artistas, músicos e bandas do país e da cidade. Daúde, Strauss, Vanguart, entre outros, foram atração do Festival. Em uma das primeiras edições na sala do multiplex, para a festa de abertura do Festival, foi montado um circo no estacionamento do Pantanal Shopping. Após a apresentação da banda de rock Revoltz, os cineastas brasileiros presentes puderam conhecer o som da banda de rasqueado cuiabano, ERRESOM. O Festival transformava a cidade de Cuiabá em um espaço criativo e democrático de trânsito de culturas diversas.

 

A capital do Estado se fazia presente nos noticiários da imprensa brasileira em decorrência da presença de dezenas de jornalistas, críticos de cinema e de canais de TV de grandes redes de comunicação que cobriam o festival, como o Canal Brasil.

A visibilidade do Estado de Mato Grosso, potencializada pelo Festival, despertou interesse de produções e cineastas em filmar em Mato Grosso: Mario, de Hermano Pena, Latitude Zero, de Toni Venturi, Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi, e o Homem Mau Dorme Bem, de Gerado Moraes, são exemplos. Essas experiências articuladas com a produção do Festival também se transformaram em importantes espaços de formação através de estágios para os alunos de comunicação que se tornariam futuros profissionais de audiovisual no Estado e no país.

 

Se mantivesse a periodicidade anual, em 2021 o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá deveria estar realizando sua 28º edição. Infelizmente essa continuidade não foi possível devido a ausência de uma política pública de audiovisual no Estado que assegurasse a regularidade desse importante projeto no calendário de eventos culturais de Mato Grosso. A mais grave delas foi quando a Lei Hermes de Abreu foi extinta e em seu lugar foi criado um Fundo Estadual de Cultural, no Governo Blairo Maggi. O desmantelamento dos mecanismos de fomento à cultura também aconteciam no cenário nacional. A suspensão dos editais de cultura da Petrobras, uma das financiadoras do projeto, atingiu diretamente não apenas o Festival de Cuiabá, como dezenas de outros festivais no Estado e no país.  Apenas para se ter uma ideia do resultado danoso que tais perdas impuseram, um importante projeto beneficiado por essa petroleira, o ADECINES – Agentes para o Desenvolvimento de Cinema nas Escolas, produzido pelo INCA, instituto Cultural América, à época também produtora do Festival, imputou na perda de trabalho remunerado de dezenas de jovens estudantes do ensino médio em Cuiabá e no Estado. Esses estudantes, juntamente com seus professores, exibiam filmes e promoviam debates nas escolas públicas do Estado. Em seu último ano, o ADECINES atingiu mais de 30 mil espectadores e realizou cerca de 300 debates sobre importantes temas para a educação, tratados a partir da ótica dos filmes.

Foi um período muito difícil, de incertezas para o Festival, ao ficar refém do gosto e do compromisso dos gestores da cultura do município de Cuiabá, do Estado e do país. Neste contexto agrava-se o fato de que a Prefeitura de Cuiabá, na gestão Wilson Santos, retirara seu apoio ao Festival, gesto que se repetiu nos últimos quatro anos do Governo Pedro Taques.

A realização desta vigésima edição através do edital da Lei Aldir Blanc impõe novos desafios ao Festival. O principal deles é sua realização através da internet em função das restrições impostas pela pandemia de COVID-19. Esse novo modelo garante segurança à saúde dos espectadores e permite atingir novas plateias, distantes de Cuiabá. Porém, ao mesmo tempo, aquele encontro caloroso e animador entre as pessoas que tanto caracterizava nosso Festival, está temporariamente adiado.

 

Nessa vigésima edição, quando o Festival renasce (feito a lendária fênix, unida à resistência do buriti) após um longo período de interrupção, as memórias de sua trajetória são fundamentais para sua sobrevida. Ainda que a sua retomada reacenda a chama do audiovisual, da cultura em geral em Mato Grosso e no páis, o perigo espreita o Festival, caso esse importante patrimônio cultural para Mato Grosso e para o Brasil não seja afirmado e instituído como tal e tenha sua continuidade assegurada. O que torna essa edição decisiva e histórica. Quiçá essas doces e amargas lembranças aqui rememoradas possibilitem que interrupções jamais aconteçam novamente.

Para encerrar, não poderia, nesse breve relato de memória, deixar de agradecer à todos os parceiros e parceiras, as pessoas e profissionais que compõem o resistente campo do audiovisual brasileiro, à equipe do Festival e, particularmente, ao público, às pessoas interessadas em cinema e audiovisual em Mato Grosso e que são o sentido maior que continua a possibilitar que esse sonho-projeto faça-se, mais uma vez, real.

Viva o cinema em Mato Grosso!

 

LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA BORGES

Idealizador, curador e produtor do Festival CINEMATO